Vácuo é a palavra que pensei agora para começar meu texto. No dicionário, significa que nada contém; absolutamente vazio, oco. Assim que me senti no dia 03 de outubro de 2022, um pedaço de mim igual a um vácuo.
Em agosto desse ano, eu descobri que estava grávida. E sim, foi um grande susto. Uma vez que ainda não tinha me planejado com meu esposo. Mas ao mesmo tempo, foi uma grande celebração no meu coração. Primeira gravidez, realização de um sonho que surgiu ainda quando brincava de bonecas. Há meros 30 anos.
A partir da fecundação, posso dizer leigamente que tudo se transforma no corpo da mulher. Não só no corpo, mas na cabeça, no coração, nas curvas, nas dores, nas pulsações e na espiritualidade. É algo divino, uma transformação rápida a cada dia. Mas algo estava estranho e não conseguia viver plenamente a gravidez. Um sonho, mas como muitos que já vivi na minha vida, sempre precisei realizá-los por um caminho mais difícil do que sempre os planejei. Talvez seja para me mostrar o quão corajosa e forte eu sou. Talvez.
Mesmo com um sentimento de negação por algumas vezes na gravidez, a dúvida e o medo aos poucos foi se transformando em roupinhas novas, sorrisos fáceis, brilhos nos olhos, sonhos variados, visualizações para o futuro e o amor gerado em toda a família. Um novo significado de completude foi tomando conta do meu ser. O sacrifício de ser mãe já inicia daí, do dia que se descobre. O tão assustador, milagroso e abençoado positivo. Então, começa a alimentação mais saudável, as dores e não poder tomar remédios, a abstenção de lugares e lazeres mais arriscados para a vida que não é só mais minha. Mas tudo isso valeu a pena só de pensar que em mim batia dois corações e que, logo logo, seríamos 3 na minha família tão amada.
No entanto, o medo bateu a porta com o primeiro ultrassom, o de 7 semanas. O saco gestacional estava menor que o normal, mas o embrião para alguns estava aparentemente bem. O saco gestacional poderia normalizar ou não nas próximas semanas, como disse a médica que realizou o procedimento. Mas logo a preocupação ficou momentaneamente distante quando o som predominante foi o do - Tum Tum, o coração batia muito rápido. Incrível como é a maternidade!
Mas é claro que eu não saí do consultório plena. O medo, o meu fiel escudeiro, aumentou consideravelmente. Por isso, a minha pesquisa ao Google consequentemente tomou conta do meu dia. Procurei muito. Mas, por falta de relatos de mamães que perdem e contam o que exatamente aconteceu, fiquei perdida. Vi alguns relatos positivos, outros tantos negativos. Mas nada conclusivos para meu caso. Um dos motivos que resolvi escrever meu relato. Muita das mamães não falam sobre o aborto abertamente. Mas quando acontece com a gente, ouvimos sempre alguém falar - aconteceu com fulano, ciclano etc. Mas acho que a omissão da perda, e escrevo baseando na minha observação e experiência, seja talvez por causa da vergonha, da frustração, da incapacidade, da raiva, da tristeza, da falta de apoio, enfim, uma série de coisas que acontecem que nos fazem esconder e não querer falar. Pois bem, continuando... decidi seguir com muita fé após o primeiro ultrassom, até porque na minha cabeça tudo teria que dar certo. A gravidez não foi planejada, mas era a minha primeira gravidez, ora bolas. E os sinais estavam por toda parte, então por que não dá certo? Os sinais estavam evidentes, muitas pessoas sonhando com minha gravidez sem saber a verdade, até eu mesmo sonhando e enxergando crianças correndo pela minha casa, um amor maior pelos bebês e crianças que via, algo inexplicável até a descoberta.
Mas aí, em um domingo de setembro, passei um mal-estar que não imaginei ser de uma perda. Pela ingenuidade, pensei ser sintomas da gravidez comuns. Mas, senti que não estava tudo bem, me senti mais triste e de repente me peguei pesquisando muito sobre aborto. E eu já estava no momento de querer falar com o mundo que estava grávida, mas poucas pessoas sabiam pois, o medo de frustrar a todos que me amam era maior. Então, eu e meu esposo resolvemos guardar segredo, como é de costume até o terceiro mês. Eis que, uma semana após o mal estar, fui fazer meu segundo ultrassom, entrando no terceiro mês, com 9 semanas e 4 dias, foi constatado da, pior maneira, minha perda gestacional. Sabe o tal vácuo, neste momento comecei a senti-lo, a médica foi ouvir o coraçãozinho e havia um vazio. Um buraco negro, um som chiado e não de tum tum. E o feto estava ali, parado com toda aparência de um bebê. Ah, só uma observação, meu marido estava comigo em tudo, não daria conta sem o apoio incondicional dele. Mas estou escrevendo para demostrar a perspectiva da mulher na maternidade e da perda.
Bom, sei que ter um filho não é fácil e sei que é muito romantizado para realidade. Mas, em contrapartida, também não fazia ideia que a dor da perda gestacional era tão imensa que não saberia lidar com ela. Dia 03 de outubro descobri meu aborto retido, isso quer dizer, os sinais vitais do embrião pararam, o coração parou de bater, não havia evidências do fluxo sanguíneo nas imagens. E ali, vi que não teria mais o meu bebê, e em tão pouco tempo vivi tantos sonhos com ele. Criei momentos, enchi meu coração aos poucos de amor e de maternidade. E com honestidade escrevo, nos primeiros dias me frustrei ao imaginar em ter que mudar minha vida para sempre, mas em nenhum momento pensei em perder meu anjinho. Um sentimento que não é ensinado em nossa cultura é a perda.
Uma tristeza como eu nunca tinha sentido antes. Falta de sentindo na vida e incapacidade de gerar foram meus sentimentos iniciais. O choro vinha e ainda vem sem eu saber o porquê de tanta intensidade. Uma tristeza infinita me invadiu e o vácuo tomou conta dos meus dias. E tive que decidir esperar meu corpo expelir naturalmente ao invés de fazer uma intervenção cirúrgica, mas como disse o meu obstetra: - o melhor seria esperar expelir o material. Então, com dor, decidi esperar. Talvez para você que nunca perdeu pode soar um exagero e um pensamento: - Mas estava só no início. Mas não, o sentimento é real. Uma vida que foi embora e eu não poderei viver com esse filho nada que eu sonhei. Ele virou um anjinho, uma estrelinha. E não viverá mais comigo. E então chegamos na fase da culpa, porque nós mulheres já temos a tendência de nos culparmos por tudo e a perda não seria diferente. Passei os primeiros dias de outubro me culpando pela perda. Ouvi muitas pessoas dizendo que Deus faz tudo certo e tudo tem um propósito e, por mais que eu saiba que é verdade, eu ainda estou no processo de aceitação.
Após duas semanas com meu bebê sem vida dentro de mim, consegui expelir ele em casa. Desculpe os termos técnicos mal-usados e os detalhes, mas para mim, eu pari, mas pari sem vida. Senti muita dor durantes algumas horas seguidas até que ele saiu (o saco gestacional juntamente com o feto) e sangrei, sangrei bastante. E sim, vi a cabecinha, o corpinho, os olhinhos. Que na minha memória vão ficar para sempre. Pequenino demais, mas já meu grande amor. Agora sou uma mãe de anjinho. E continuo em frente. A vida não para e o tempo também não. E entendo, quem ler achar um exagero, até porque já estive desse lado e peço perdão a falta de empatia que tive com as mamães de anjo que tem por aí e até muito próximas a mim que eu não estendi as mãos. E deixo o meu relato, já que acabamos de passar o mês de outubro, mês da Conscientização da Perda Gestacional e Infantil, pois infelizmente isso é mais comum do que eu imaginava. Segundo os médicos, até 20% de todas as gestantes correm risco de perda gestacional. E o assunto não é tão comentado. O apoio as mamães em hospitais e nos consultórios, muitas vezes deixam a desejar. O acolhimento entre alguns profissionais é muito frustrante.
Depois do meu aborto retido, tive o aborto espontâneo, tive que ir para o pronto socorro para ver se estava tudo bem. E agora está tudo bem com meu corpo. A fraqueza do corpo e do espirito vem forte após o aborto. Mas meu útero está limpo, mas com um vácuo enorme nele e no meu coração. E como se diz o velho e bom ditado: para quem tem fé só o tempo e Deus para curar....
E assim a vida continua, com muita gratidão pela minha família e amizades que me deram total apoio durante todo o processo ou mesmo depois que souberam de tudo, sem eles eu não seria ninguém. A cada abraço apertado, a cada lágrima que caiu junto comigo, a cada oração e a cada mensagem recebida. Mas ainda é preciso divulgar o aborto, pois apesar de eu ter uma rede de apoio sensacional, senti como isso ainda é pouco divulgado, é pouco assistido pela saúde como um todo e como muitas mulheres ainda não conseguem falar sobre isso. Cada uma por uma ou várias razões.
Agora uma despedida ao meu anjinho que veio para mostrar que ser mãe transforma a vida de uma mulher:
- Meu filho (a) você veio me mostrar que eu quero ser mãe para o resto da minha vida. Te sentir foi o melhor sentimento que você pôde me dar. E obrigada por me mostrar que sou capaz de amar incondicionalmente, mesmo pensando que não. Sou capaz de amar mais você do que a mim. Te amo! Brilha no céu!